Perfil das Deusas
Um resumo
Quase
totalidade da criação se dá entre seres complementares: feminino e masculino. A
complementaridade/dualidade é presente também em outros aspectos da natureza,
como dia e noite, bem e mal, o uno e o múltiplo, a essência e a aparência,
nascimento e morte, yin e yang, positivo e negativo, espírito e matéria, etc.
Com as
divindades não poderia ser diferente. Os deuses e deusas surgem como mitos,
personificações e arquétipos que estão presentes em toda civilização para
explicar, modelar, contar sobre a nossa vida em suas expressões ideais,
idealizadas e quer queiramos ou não, servem como lógica - logus a dar coerência e transcendência aos horizontes tanto do
passado como do presente e do futuro.
Das deusas,
nos interessam de perto Atena – sabedoria e justiça, Hera – casamento e
relações humanas, Héstia - lar, Deméter - maternidade, Perséfone- vida e morte,
Ártemis - natureza e Afrodite- o amor; que possuem símbolos, sofrimentos e
superações que são comuns a todas nós.
1. Introdução
A civilização ocidental
herdou grande parte de sua cultura da Grécia Antiga, ou seja, do mundo grego, que
incluía, além da península grega, várias cidades do litoral do Mediterrâneo até
partes da Ásia e África. Outra parte se deve à cultura judaica, legada por Moises,
cuja história é mais recente que as dos deuses gregos, e foi narrada na Torá e
no Antigo Testamento. A partir daí, temos as duas fontes principais donde
emanam a cultura ocidental: a cultura grega e a judaica.
Dos gregos
temos a religião politeísta narrada nos cantos épicos homéricos no período aproximado
do século XII a.C. até ao séc. VII a.C. Nesse período, na grande região grega,
tínhamos uma sociedade agrícola, pastoril e patriarcal. Passa-se a ter maior
comércio e segue-se uma sociedade citatina
ou urbana. É na pólis: cidade ou
estado, que se reúnem os moradores –cidadãos - e organizam-se politicamente,
formando as regras da sociedade, as leis e costumes, de modo diferente do campo. Nesse período onde a técnica (calendários, alfabeto,
comércio e riqueza) passa a predominar, a cultura e as explicações de como
funciona o mundo vão se modificando e abandonando as tradições religiosas. Para
os pensadores da época, elas passam a ter um apenas um caráter religioso, pois,
outras explicações para origem do cosmos e das leis, se firmam em observações e
explicações diferentes, baseadas na tradição. No século VII a.C. e seguintes,
surge o que chamamos hoje de Filosofia, baseado nas novas explicações que,
sucessivamente, vão elaborando os pensadores como Pitágoras na cidade de Samos,
Thales, em Mileto, e em outras cidades que passam a formar a Magna Grécia.
Como explica
Marilena Chauí: “O filósofo Aristóteles
afirmará que a riqueza e a existência dos escravos liberaram os gregos da
fadiga e da pena do trabalho e dos negócios, dando-lhes o ócio indispensável
para a vida contemplativa, isto é, para Filosofia. ” Assim através de
vários filósofos, além dos citados, como Anaximandro, Heráclito, Zenão,
Demócrito, Parmênides, até chegarmos aos expoentes de Sócrates, Platão e
Aristóteles, foi se formando o nosso conhecimento que não era apenas a prática
de saber fazer algo, mas sim refletir sobre algo.
Ainda entre os
filósofos destaco Xenófanes, que critica a religião baseada na teogonia. “As suas críticas à religião não tinham como
objetivo um ataque pleno à dita mas, dar ao divino uma pura e elevada ideia: o
verdadeiro deus é único, com poder absoluto, clarividência perfeita, justiça
infalível, majestade imóvel; que em pouco se assemelha aos deuses homéricos”
Ver Wikipedia [1]
Novamente em
Marilena Chauí encontramos: “ O mito recebe da filosofia a forma lógica,
enquanto a Filosofia recebe do mito os conteúdos que precisam ser repensados. ”
Assim sendo a
filosofia, decididamente, desprendeu-se do caráter religioso, organizando e
formando o arcabouço do conhecimento humano no mundo ocidental.
Nesse período,
não tínhamos escolas como as que temos hoje. Os pensadores se reuniam, discutiam
e tinham adeptos e seguidores ou opositores. Assim a escola de Platão foi a
Academia, num jardim de Atenas, a de Aristóteles foi o Liceu, também em Atenas,
que já possuía uma estrutura mais próxima com o que conhecemos hoje por escola.
Isso mostra
num instante, simplificadamente, a influência da cultura Grega.

A
cultura judaica começa com Abraão, que nasceu na Caldéia, uma região da
Mesopotâmia, que também possuía diversos deuses e deusas, um dos berços da
civilização humana. Abraão recebe a missão de procurar a terra sagrada - Canaã,
onde sua família e seguidores poderiam cultuar um deus único, diferente de
todos os deuses conhecidos por eles. Abraão teve um longo percurso até chegar
ao Egito e depois de vários episódios se estabelece em Hebron- atual Israel. Abraão
teve um filho com Hagar (uma escrava) que se chamou Ismael e outro com Sara
(sua esposa) que foi Isaque. De Ismael descenderam os ismaelitas, os árabes, e
de Isaque os israelitas, os judeus. Mais tarde os descendentes de Jacó, filho
de Isaque e Rebeca, que geraram várias tribos, foram escravizados no Egito até
que Moisés os libertou e regressaram a Canaã. Moises recebe de YHWH como Deus –
o único - os cinco livros principais da Torá: Gênesis, Êxodos, Levítico,
Números e Deuteronômio. Outros foram acrescidos, no conjunto hoje chamado de
Antigo Testamento. Assim, para esses povos criou-se o Monoteísmo, em contrapartida de outras partes do mundo de então que
era essencialmente politeísta. Todos esses fatos são dados pela própria Bíblia
e mais outros fatos históricos provenientes de outras fontes.
Na a China,
Índia, e no grande continente americano, desconhecido dos povos da Europa e Ásia,
existem diversas culturas e religiões diferentes das vistas e, igualmente,
ricas em conteúdos simbólicos.
Os
ensinamentos judaicos foram disseminados pelo mundo como Monoteísmo, embora tivéssemos
outras fontes que também admitiam a existência de um Deus único e criador de
todo universo ou cosmos, como os egípcios (com Aknaton) ou mesmo os gregos. Muitas
coisas aconteceram ao povo judeu que ainda não conseguira uma estabilidade numa
região como nação autônoma.
Novos
ensinamentos são necessários a todos, judeus e não judeus.
Nasce, entre
os judeus da Palestina, uma província dominada pelos romanos, aquele que veio
complementar e corrigir os costumes da época – o Cristo. Ele passa a ensinar, tanto
o que Moisés havia pregado, como também outras coisas e práticas que se
destacaram da doutrina, ensinada até então. Cristo foi crucificado e seus seguidores
continuaram a espalhar o que chamavam de Boa Nova ou seja, – o evangelho. A partir
do século III DC, o Cristianismo, que era proscrito pelo mundo greco-romano, passa
a ser parte do estado romano e difunde-se por todo mediterrâneo, Europa, partes
da Ásia, India e da África. O Cristianismo herda muito do Judaísmo e esse do
politeísmo, e, acrescenta, aos velhos textos sagrados, os novos ensinamentos,
que foram também transmitidos, oralmente, além dos escritos pelos evangelistas.
Com esse
brevíssimo panorama da nossa civilização, voltamos aos tempos de onde surgiram
os mitos, os deuses e deusas para explicar, modelar e principalmente inspirar
uma caminhada que não prescinde das explicações da cultura atual, mas que
procura saber suas origens.
1.1 Deuses e deusas gregas
A origem dos
deuses e deusas gregas é contada em duas principais fontes: (1) os poemas
épicos Ilíada e Odisseia (atribuídos a Homero) (2) a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias (produzidos
por Hesíodo). Os deuses estão agrupados em 3 gerações.
Na primeira
temos Caos, Gaia, Tártaro, Ponto, Nix e Érebos. Algumas fontes incluem
Eros.
Na segunda temos Titãs, Titânides,
Cíclopes, Hecatonquiros, etc.
Na terceira geração temos vários
filhos de casais que unem: Céos e Febe, Oceâno e Tétis, até os filhos de Reia e
Cronos. Desse último casal surgem os deuses olímpicos, que habitam o Olimpo, e
entre eles Zeus, o rei dos deuses. A lista completa é imensa.
Na genealogia grega há ainda os heróis, as ninfas, os
gigantes e os intermediários entre os deuses e os humanos. A figura a seguir, mostra um esquema da genealogia desses deuses.
Ver outra figura completa em [5]
Aqui já podemos ver que culturalmente, são
sempre citados em primeiro plano os seres masculinos, pois todo o arcabouço era
patriarcal. Contudo a base da criação é solidamente dual: masculino e feminino sempre interagindo.
Tal não acontece mais após o advento do Cristianismo,
no qual a presença masculina e totalmente predominante.
1.2 Deusas gregas e as mulheres
Segundo o livro A Deusa Interior de Jennifer/ Roger
Woolger [3], temos como mitos/modelos principais, as 6 deusas gregas: Atena, Hera,
Deméter, Ártemis, Perséfone e Afrodite. Essa autora trabalha com as deusas em díades,
isto é, em duplas, como pares de opostos formando a roda das deusas, um esquema com as deusas
da seguinte forma:
Cada uma das deusas está
associada a uma esfera de ação predominante.
1.2.1 Breves notas sobre as deusas gregas
Atena
“É também conhecida
como Palas Atena é, na mitologia grega, a deusa da guerra, da civilização,
da sabedoria, da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade”.
Corresponde, na mitologia romana, a Minerva.
”
“A mulher do tipo predominante Atena, busca
a realização profissional numa carreira, envolvendo-se com educação, cultura intelectual,
justiça social e com política”.
É a deusa do pensamento, intelecto, da razão,
filha de Zeus e Tétis- primeira esposa de Zeus, a deusa da astúcia. Nasce
diretamente (partenogênese – virgem + nascimento) da cabeça de Zeus, por isso,
é a filha preferida e se manteve sem
casar ou ter amantes. Era considerada mais poderosa do que o próprio Ares – deus da guerra. Como está ao
lado do pai, e não cresceu com a mãe que fora engolida por Zeus, é considerada
como uma conservadora, mas justa.
Seus símbolos são a coruja, a espada, oliveiras, armadura e elmo.
Hera:
“Na
religião grega, é a deusa das bodas, da maternidade, do céu e das esposas, equivalente de Juno na religião romana.
Irmã e esposa de Zeus, é a rainha dos deuses, e patrona da fidelidade
conjugal. ”
“Ela se ocupa do casamento, da convivência com
os homens, e, sempre que as mulheres são líderes governamentais, de questões ligadas
ao poder. ”
Hera, filha de
Cronos e Reia, é também irmã de Zeus, que teve várias outras relações. Os
símbolos são o leão real, cuco ou falcão ou também a fênix.
Deméter:
“Deusa da terra cultivada,
das colheitas e das estações do ano. É propiciadora do trigo, planta símbolo da
civilização. Ligando-se à agricultura, fez várias e longas viagens com Dionísio ensinando os homens a cuidarem da terra e das plantações.
Em Roma,
onde se chamava Ceres, seu festival
era chamado Cereália, sendo celebrado na
primavera. ” Junto com Perséfone presidia os mistérios de Elêusis, cidade
próxima de Atenas, onde havia as iniciações de sacerdotisas às demais deusas
agrícolas.
Ela também é filha de Cronos e Reia, irmã de Zeus, com quem teve
uma filha, Persófone. Além disso teve como parceiros outros deuses e mortais.
“Ela é a verdadeira mãe-terra, que gosta de estar
grávida, de amamentar e cuidar de crianças; está relacionada com todos os aspectos
do nascimento e com os ciclos reprodutivos da mulher. ”
Na primeira geração
também temos Gaia que é a Terra, em si.
Ártemis
“É uma deusa virgem da mitologia
grega ligada à vida selvagem e à caça.
Ela era filha de Zeus e de Leto
(uma titã), irmã gêmea de Apolo; mais tarde, também, tornou-se, associada à lua e
à magia. Ela era a deusa grega da lua, caça, animais
selvagens, região selvagem, parto, virgindade e protetora das meninas, trazendo alívio para
as mulheres, muitas vezes ela foi descrita como uma caçadora, era companheira
de Órion, o caçador, carregando um arco e flechas.
Era acompanhada pelo cervo e o cipreste que eram símbolos sagrados para ela. “
“A mulher do tipo Ártemis, é prática, atlética, aventureira, aprecia a cultura
física, a solidão, a vida ao ar livre e os animais; dedica-se a proteção do meio-ambiente,
aos estilos de vida alternativos e às comunidades de mulheres.
Perséfone
“É a deusa das ervas e chás, flores, frutos e perfumes. É filha de Zeus e Deméter, a deusa das
estações anuais e feminilidade. ” Foi
raptada por seu tio Hades, com consentimento de Zeus e contra a vontade de sua
mãe Deméter, mas Perséfone, apesar disso, o aceitou e tornou-se deusa e rainha
do mundo avernal. Há várias estórias com os demais relacionamentos de
Perséfone, entre eles com Dionísio. É também a deusa da boa morte.
“A mulher do tipo Perséfone, é mediúnica e atraída
pelo mundo espiritual, pelo oculto, pelas experiências místicas e visionárias, e
pelas questões ligadas à morte. “
Afrodite.
É a deusa do amor, da beleza e da sexualidade na religião
grega. Outros atributos incluem: fertilidade,
o prazer e alegria. Historicamente, seu culto na Grécia Antiga foi importado da Ásia, influenciado pelo culto de Astarte, na Fenícia, e de sua cognata, a deusa Ishtar dos acádios.
Teve vários relacionamentos com Hefesto, Ares, Adônis, entre outros, cada um
dos quais ricos em vários elementos simbólicos.
Existem duas origens para Afrodite: (1) como filha de Zeus e Leto
e outra como tendo nascido da espuma dos órgãos genitais de Cronos, que foram cortados
e atirados ao mar por Uranus. Vários historiadores falam de Afrodite Urânia, nascida
da espuma do mar pelo órgãos genitais de Cronos; e (2) Afrodite Pandemos – de todo
o mundo- nascida de Zeus e Dione.
“A mulher
desse tipo, está voltada principalmente para os relacionamentos humanos, sexualidade,
intriga, romance, beleza e inspiração das artes. “
Segundo Jean Shinoda Bolen, no livro As Deusas
e a Mulher, temos 7 deusas a considerar. As 6 anteriores e mais a deusa Héstia.
Héstia
“É a deusa virgem do lar, lareira, arquitetura,
vida doméstica, família e estado. É uma deusa que recusou o casamento, mesmo tendo sido cortejada
e Zeus permitiu que seus votos fossem mantidos, e recebesse as honras em cada casa.
“Sempre fixa e imutável, Héstia simbolizava a perenidade da civilização.
”
Jean Shinoda
usa também o fato das deusas: Atena, Héstia e Ártemis serem virgens, como deusas
não vulneráveis ao passo que as deusas
Hera, Perséfone e Deméter são vulneráveis,
pois foram deusas raptadas, humilhadas e dominadas pelos deuses. Já Afrodite, não
é nem vulnerável nem invulnerável e sim, considerada alquímica e às vezes, vulnerável.
Nesse livro temos o seguinte quadro:
Quadro 1:Deusas olímpicas e características
Deusa
|
Categoria
|
Função arquetípica
|
Comentários
|
Ártemis (Diana)
Deusa da caça e da lua
|
Deusa virgem
|
Irmã
Competidora
Feminista
|
Companheiras (ninfas)
Mãe: Leto /Pai: Zeus
Irmã gêmea de Apolo
|
Atena (Minerva)
Deusa da Inteligência e da
Arte
|
Deusa Virgem
|
“Filha do Pai”
Estrategista
Sem mãe
|
Pai: Zeus/ mãe: Metis
(engolida por Zeus)
Escolhe os heróis
|
Héstia (Vesta)
Deusa da lareira e do templo
|
Deusa Virgem
|
Solteira
Mulher sábia
Filha de Cronos e Reia
|
Nenhum
(às vezes, faz par com Hermes)
Filha de Cronos e Reia
|
Hera (Juno)
Rainha dos Céus
Deusa do casamento
|
Vulnerável
|
Esposa
Fiel aos compromissos
|
Casada com Zeus (irmão)
Sofreu várias traições
Filha de Cronos e Reia
|
Demeter (Ceres)
Deusa do Cereal
|
Vulnerável
|
Mãe
Nutridora
|
Foi casada
com Zeus
(irmão)
Filha de Cronos e Reia
sofreu estupro
Filha é Perséfone
|
Perséfone (Proserpina)
Jovem Rainha do Inferno
|
Vulnerável
|
“Filha da mãe”
Mulher receptiva
|
Filha de Demeter
Filha de Cronos e Reia
Raptada e casada com Hades ( Deus dos Infernos)
|
Afrodite (Vênus)
Deusa do amor e da
Beleza
|
Vulnerável
Alquímica
|
Amante
Mulher sensual
Mulher criativa
|
Filha de Zeus e Dione ou
Nascida da espuma do mar
Casada com Hefesto (deus do metal)
Vários amantes e filhos
|
Quadro 2: Tipos psicológicos das deusas
Deusa
|
Tipos
psicológicos junguianos
|
Dificuldades
psicológicas
|
Forças/Habilidades
|
Ártemis
|
Normalmente extrovertida
Normalmente intuitiva
Normalmente carinhosa
|
Distância emocional,
Crueldade, rancor
|
No estabelecimento e realização
dos objetivos, independência,
autonomia; amizade com mulheres.
|
Atena
|
Normalmente extrovertida.
Definitivamente reflexiva.
Normalmente sensível.
|
Distância emocional
Astúcia, carente de empatia
|
De pensar corretamente, resolver
problemas práticos e fazer estratégias;
Forma alianças sólidas com homens.
|
Héstia
|
Definitivamente introvertida
Normalmente sensível
Normalmente intuitiva
|
Distância emocional,
Carência social.
|
De apreciar a solidão;
de ser espiritualmente criativa.
|
Hera
|
Normalmente extrovertida.
Normalmente carinhosa.
Normalmente sensível.
|
Ciumenta, vingativa, rancorosa.
Inabilidade de abandonar um
relacionamento destrutivo.
|
De manter compromissos
assumidos durante toda vida,
fidelidade.
|
Demeter
|
Normalmente extrovertida
Normalmente carinhosa
|
Depressiva, desgastada,
Dependente como agente de nutrição,
gravidez não planejada.
|
Ser maternal e nutridora de outros, generosidade
|
Perséfone
|
Normalmente introvertida
Normalmente sensível
|
Depressiva, manipuladora,
Voltada para o fantasioso.
|
Ser receptiva, de apreciar imaginação
ou sonho; potencial para habilidades psíquicas.
|
Afrodite
|
Definitivamente extrovertida
|
Relacionamentos sucessivos,
promiscuidade, dificuldade em considerar as consequências
|
Apreciar o prazer e a beleza, de ser
sensual e criativa.
|
1.2.2 Outras deusas e mitos
Saindo do mundo
europeu e seus domínios, temos o vasto continente americano e grande parte do continente
africano e também grande parte da Ásia e Ásia Menor e Austrália e Índia.
Nesses lugares
de tantas culturas diferentes, às vezes consideradas não civilizadas, (entende-se
a civilização organizada nas cidades e dentro do patriarcado ocidental) temos uma
infinidade de outros mitos que consistem uma gama tão variada ou mais que os mitos
gregos.
Temos a religião
antiga egípcia, nórdica ou germânica, viking ou escandinava, a inca, etc. que deixaram
marcas profundas em vários povos.
O hinduísmo é a
cultura mais antiga que perdura até aos dias de hoje, enquanto que as demais se
perderam ou são cultuadas através de sincretismos ou tem um pequeno número de adeptos.
Ainda hoje a religião
hindu, que perdura desde a pré-história, diferentemente das demais, não possui um
chefe supremo ou um só livro sagrado.
Segundo Dr.
Devdutt Pattanaik, em a Handbook of Hindu Mythology temos:
Hindus have one Gog.
They also have 330 million
gods, male gods, female gods, personal gods, family gods, household gods, gods of
space and time, gods for specific castes and particular professions, gods who reside
in trees, in animals, in minerals, in geometrical patterns and in man-made objects.
Then there are whole hosts
of demons.
But, no Devil.
Podemos traduzir
por:
Hindus
têm um Deus
Eles têm também
330 milhões de deuses masculinos e deusas femininas, deuses pessoais, e familiares,
da casa e do lar, do espaço e tempo, deuses para castas específicas e profissões
em particular, deuses que residem em árvores, em animais, em minerais, nas formas
geométricas e em objetos feitos pelo homem.
Então
eles possuem vários demônios- espíritos maus.
Mas,
nenhum Diabo.
Temos a trimurti ou trindade masculina, com Brahma força criadora ativa do universo,
Vishnu – responsável pela manutenção do universo e Shiva, pela transformação ou
destruição.
Na tridevi ou trindade feminina temos Saraswati
– deusa da sabedoria, Lakshmi é a deusa da beleza, fartura e generosidade e Parvati
ou Shakti é uma deusa mais complexa e possui uma parte benigna e outra mais sombria
associada com Durga e outras.
Todos os deuses
possuem suas esposas, tornando o conjunto dos deuses em equilíbrio análogo ao da
natureza.
2. Mitos e Arquétipos
As religiões
gregas baseadas nos deuses/mitos não existem mais, mas continuamos a estudá-los,
devido sua influência na cultura e nas próprias religiões atuais. Hoje, os mitos
não constituem razões para explicar os diversos fenômenos e acontecimentos que não
possuíam uma causa lógica ou histórica, o que era nos primórdios. Por exemplo,
a primavera era explicada pela permissão dada à Perséfone, por Hades, voltar à
terra, quando tudo floria e reproduzia. Enquanto ela ficava no inferno,
tínhamos o inverno e outono. Hoje, os mitos
não fazem mais parte do modo de ver ou explicar o mundo. Mas, (há sempre um
mas...) damos as mãos ao que ainda é incognoscível e está gravado em nós,
culturalmente através dos arquétipos, ou ainda através das nossas vidas
passadas. E o historiador Pierre Grimal, diz:
O mito se opõe
ao logos como a fantasia à razão, como a palavra que
narra à palavra que demonstra. Logos e mito são as duas metades da linguagem,
duas funções igualmente fundamentais da vida do espírito. O logos, sendo uma argumentação,
pretende convencer. O logos é verdadeiro,
no caso de ser justo e conforme à 'lógica'; é falso quando dissimula alguma burla
secreta (sofisma). Mas o mito tem por finalidade apenas
a si mesmo. Acredita-se ou não nele, conforme a própria vontade, mediante um ato
de fé, caso pareça 'belo' ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar.
O mito, assim, atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento
humano; por sua própria natureza, é aparentado à arte, em todas as suas criações.
[8]
Ainda há outras opiniões e conceitos.
Para Mircea Elíade,
“O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que
teve lugar no começo do Tempo. Mas contar uma história sagrada equivale a
revelar um mistério, pois os personagens do mito não são seres humanos: são
deuses ou Heróis civilizadores. ”[6]
Tanto os mitos
como heróis influenciam os contos e lendas ancestrais. Todos eles possuem uma
tarefa ligada com a “moral da estória”;
para servir de explicação, ou criar um modelo que seja adaptador para a vida em
sociedade.
Assim desde o
início da cultura do século XI a.C., no mundo ocidental, vamos formando a nossa
história cultural com elementos masculinos a predominarem no mundo.
Justamente,
aqui entra a necessidade de escutarmos outros
contos e mitos que nos tragam de volta ao mundo primitivo, onde tínhamos um contato mais direto com a
natureza. E aqui que entra o estudo do livro Mulheres que correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Se, no século
XX, Freud e Young usaram os mitos e arquétipos gregos para
explicar/exemplificar as nuances e doenças da alma, e a partir daí, sugerir
meios de cura pela catarse ou conscientização, agora Clarissa usa os contos de
outros naipes para curar as almas femininas dos excessos da nossa civilização.
Não fosse, pela seriedade e pelos resultados, seria apenas mais uma brincadeira, mais estórias, que entram por uma porta e
saem por outra...ou entram em nossa alma e ficam latentes até que cantemos a
canção da La Loba, e então podemos correr aliviadas para o encontro com nosso
self.